Políticas Públicas

PARTICIPAÇÃO SOCIAL

Moça cadeirante se manifestando em audiência pública na CONITEC pela liberação de medicamentos

Políticas públicas e direitos devem considerar as necessidades específicas de pessoas com doenças raras e pessoas com deficiência (PCDs). No Brasil, a participação social para colaborar com a elaboração e a fiscalização da execução das políticas públicas de saúde (controle social) é um direito legal, fundamentado no artigo 198 da Constituição Federal e em normas infraconstitucionais.

É importante que pacientes de doenças raras e seus familiares estejam familiarizados com o conceito de advocacy, mas o foco desta página é a participação social na construção e fiscalização de políticas públicas.

Pessoas com doenças raras e PCDs enfrentam barreiras específicas — desde o diagnóstico até o acesso a tratamento, educação, trabalho e mobilidade. A universalização dos direitos só será justa se contemplar as desigualdades reais com ações afirmativas e inclusivas.

⚠️ Só criar novas leis não basta. Criar leis é um passo importante, mas só há justiça social quando essas leis são efetivas. O Brasil já possui um arcabouço legal robusto (ex: Constituição Federal, Estatuto da Pessoa com Deficiência, Lei Brasileira de Inclusão, Portaria nº 199/2014 sobre doenças raras), mas a implementação é desigual — muitas leis não saem do papel por falta de orçamento, capacitação dos profissionais e fiscalização.

Política pública deve ser uma construção coletiva, envolvendo pacientes, associações e familiares, gestores públicos de saúde, profissionais de saúde e legisladores. A base legal desta participação é o artigo 198 da Constituição Federal de 1988 e outras normas infraconstitucionais, como a Lei Orgânica da Saúde (Lei nº 8.080/1990) e a Lei nº 8.142/1990, que estabelece a participação da comunidade na gestão do SUS e criou os Conselhos e Conferências de Saúde como espaços de controle social.

A hierarquia da participação popular

  • CNS (Conselho Nacional de Saúde) — órgão colegiado ligado ao Ministério da Saúde, com representantes do governo, trabalhadores da saúde, prestadores de serviço e usuários. Delibera sobre políticas nacionais de saúde.

  • Conselhos Estaduais de Saúde — papel semelhante ao CNS, na formulação e fiscalização das políticas estaduais.

  • Conselhos Municipais de Saúde — acompanham, fiscalizam e deliberam sobre as políticas de saúde locais.

  • Conselhos Locais de Saúde — presentes em unidades básicas de saúde (UBS), espaços de diálogo entre usuários, trabalhadores e gestores para resolver problemas cotidianos.

Duas entidades relevantes na gestão tripartite do SUS (União, Estados e Municípios) são:

  • CONASS — Conselho Nacional de Secretários de Saúde, que representa os secretários estaduais e atua na articulação entre estados e na defesa do SUS.

  • CONASEMS — Conselho Nacional de Secretarias Municipais de Saúde, com funções semelhantes ao CONASS no nível dos municípios.

Conselhos de saúde, conferências e audiências públicas são mecanismos de controle social. A atuação da sociedade civil — especialmente de associações de pacientes e familiares — é essencial para garantir que as políticas públicas reflitam as reais necessidades da população, pois ainda há muitos problemas no âmbito das doenças raras: são 8.000 tipos de doenças raras e cerca de 13 milhões de brasileiros com alguma delas, enfrentando enorme dificuldade de diagnóstico, acessibilidade ainda precária e baixo conhecimento sobre doenças raras entre profissionais de saúde — especialmente na atenção primária. É preciso também combater o capacitismo através de campanhas educativas.

Ilustração sobre a luta social pela Portaria 199/2014

Um marco importante foi a Portaria 199/2014, do Ministério da Saúde, que estabeleceu a Política Nacional de Atenção Integral à Pessoas com Doenças Raras (PNAIPDR).

Vale ressaltar que esta conquista não foi obtida apenas pela "bondade" do Ministério da Saúde — foi necessária uma luta enorme, com pressão política organizada e articulação de associações de pacientes, diálogo e construção política propositiva, para conseguir sua aprovação.

Embora a PNAIPDR seja muito importante, há muitos desafios para implementar na prática algumas de suas determinações — o Brasil é um país grande e desigual, com muitas diferenças socioeconômicas regionais:

  • Falta de centros especializados em doenças raras em muitas regiões.

  • Longos tempos de espera por diagnóstico.

  • Desconhecimento sobre doenças raras entre profissionais da saúde.

  • Falta de equidade regional.

Visando maior eficácia, a Portaria GM/MS 3.132/2024 instituiu recentemente a Câmara Técnica Assessora de Doenças Raras (CTA de Doenças Raras) no Ministério da Saúde, um órgão técnico, consultivo e educativo. Uma de suas competências (Art. 2º, II) é propor ações para a educação permanente de profissionais de saúde na atenção à população afetada por doenças raras.

A educação permanente dos profissionais de saúde precisa ocorrer na prática. A atenção primária é a porta de entrada do SUS — se o profissional da ponta não reconhecer os sinais de uma doença rara, o tempo para diagnóstico e início de tratamento adequado aumenta significativamente.

Se você tem ataxia ou cuida de alguém com ataxia (ou outra doença rara): é necessária uma vigilância social ativa para garantir que as promessas de equidade e cuidado integral não fiquem apenas no papel. A luta por melhorias na saúde nas doenças raras precisa ser coletiva, informada e organizada — há canais adequados para a participação social, bem como processos definidos para a incorporação de novos medicamentos ao SUS. Não adianta bater panelas no lugar ou na hora errada — é importante conhecer estes processos para atuar de forma adequada.

A página Advocacy explica em detalhes o processo de ATS (Avaliação de Tecnologias de Saúde) no Brasil, que envolve a farmacêutica, a ANVISA (órgão regulador), a CMED (definição de preços) e a CONITEC, que avalia — em até 9 meses — as tecnologias de saúde com base em evidências científicas para recomendar ou não a incorporação ao SUS. O Ministério da Saúde tem a decisão final.

Um aspecto importante deste processo, sobretudo na etapa da CONITEC, é que existem pelo menos dois momentos onde é prevista a participação social:

  • Perspectiva do paciente — em um momento específico do processo, alguém que convive com a doença tem 10 minutos para falar presencialmente sobre sua experiência e sua jornada, fornecendo subsídios de "vida real" para os tomadores de decisão. Após esses depoimentos, a CONITEC produz sua Recomendação Inicial.

  • Consulta pública — após a Recomendação Inicial, há um período de 20 dias em que a sociedade civil pode colaborar via formulário online, informando se concorda ou não com a recomendação e por qual motivo. Essas colaborações são levadas em conta na Recomendação Final da CONITEC (SIM ou NÃO para a incorporação).

Consulta pública não é "votação", não é "abaixo-assinado" e não é espaço para reclamar ou fazer politicagem — também não vale "copiar e colar" o mesmo texto. O que importa é a qualidade da contribuição: informações que ajudem os gestores na tomada de decisão, a partir da sua própria perspectiva (de paciente, médico ou cuidador), de forma racional e educada.

Para uma participação mais eficaz nas consultas públicas, procure estar bem preparado: leia as informações disponíveis sobre outras consultas na plataforma Participa+ Brasil, e assista a vídeos de reuniões passadas dos comitês da CONITEC antes de dar sua contribuição.

Decisão final sobre a incorporação

O relatório com a Recomendação Final é enviado ao Secretário da SECTICS (Secretaria de Ciência, Tecnologia e Inovação e do Complexo Econômico-Industrial da Saúde), que toma a decisão final e a publica no Diário Oficial.

  • Se a incorporação for negada, é previsto em lei que o Secretário da SECTICS peça uma audiência pública para nova discussão presencial — um terceiro momento de participação social, embora isso aconteça pouco.

  • Se a incorporação for aprovada, por lei o medicamento deve estar disponível no SUS em até 180 dias, e deve ser elaborado o PCDT (Protocolos Clínicos e Diretrizes Terapêuticas) que padroniza a dispensação do medicamento.

A CONITEC adota uma abordagem multidimensional, considerando quatro eixos principais para embasar suas recomendações:

01
Eixo Econômico — custo, custo-efetividade, custo-utilidade e impacto orçamentário para o SUS.
02
Eixo Clínico — evidências científicas sobre eficácia, efetividade, segurança e perfil da população-alvo.
03
Eixo Organizacional — impactos na logística, estrutura, capacidade instalada e recursos humanos.
04
Eixo da Participação Social/Paciente — impacto social, aceitabilidade, aspectos éticos, equidade e evidências de vida real trazidas pela sociedade civil.

A participação social no processo de ATS não é burocrática ou simbólica — é parte integrante da análise final, contribuindo para que as decisões da CONITEC sejam mais centradas nas necessidades reais da população usuária do SUS.

A CONITEC tem um cadastro para a participação social — na verdade, três cadastros (Especialistas em Saúde; Pacientes e Associações; e Gestores do SUS). O acesso requer autenticação pelo portal gov.br.

Os dados do cadastro de pacientes embasam a atuação da Abahe em conselhos de saúde, audiências públicas e consultas públicas da CONITEC. Quanto mais pacientes cadastrados, mais peso e legitimidade tem essa participação.

CLIQUE AQUI PARA SE CADASTRAR

Cartaz incentivando a começar a participação social em saúde perto de sua casa

1. Comece sua militância perto de sua casa

A pessoa com doença rara mora em algum município — é neste nível que a participação social deve ser iniciada. A vida da pessoa com doença rara acontece no seu bairro, na UBS mais próxima, na escola local.

Começar pela militância local é mais acessível, menos custoso e mais efetivo. É mais fácil colaborar com o Conselho Municipal de Saúde do seu município do que atuar, de início, no nível federal ou estadual. Vá à Câmara de Vereadores e veja o que os vereadores do seu município sabem (ou não sabem) sobre doenças raras — depois, os Deputados Estaduais (que influenciam políticas estaduais) e os Deputados Federais e Senadores (que legislam e destinam emendas parlamentares). A luta por direitos deve começar onde a vida acontece: perto de casa.

Ilustração gerada por IA — esteja bem preparado para dar sua contribuição

2. Esteja bem preparado para dar sua contribuição

Não é eficaz levar aos gestores de saúde frases como "o SUS demora muito no atendimento" — são realidades já conhecidas, mas genéricas, com valor simbólico e não operacional. Em vez disso, leve uma contribuição que ajude o gestor a entender melhor a realidade de quem vive com uma doença rara. Compartilhe sua experiência: como uma mãe com dois filhos em cadeira de rodas faz para levá-los regularmente à fisioterapia? Leva um de cada vez? Aluga uma van, com que dinheiro?

São essas histórias de vida real que mobilizam recursos, despertam empatia e fundamentam projetos de lei ou ações administrativas — por exemplo, transporte sanitário gratuito para apoiar o deslocamento até centros de tratamento.

Ilustração gerada por IA com os dizeres que política é diálogo e não briga

3. Política é diálogo, e não briga e lacração em rede social

Como dizem especialistas em participação social em saúde, atuar nos conselhos de saúde (em qualquer nível) é um trabalho político — não no sentido de "política partidária", mas no sentido de diálogo, respeito e colaboração em busca de soluções compartilhadas para problemas difíceis. Política é diálogo, escuta e construção coletiva; não é sinônimo de briga ou disputa ideológica. É um espaço onde a vivência vira proposta concreta de mudança. Se você quer ser ouvido, seja respeitoso e aprenda a conviver com opiniões diferentes.

Ilustração gerada por IA com os dizeres informação empodera

4. Informação empodera

Doenças raras são pouco conhecidas, até mesmo pelos profissionais de saúde — com poucas exceções, os profissionais da atenção primária do SUS não conhecem doenças raras, o que atrasa o diagnóstico e o manejo adequado. Procure se informar em fontes confiáveis sobre sua condição: a informação de qualidade dá poder de exigir, poder de dialogar com base, e poder de resistir e construir — além de possibilitar decisões compartilhadas com os médicos, já que nas doenças raras os papéis tradicionais da relação médico-paciente muitas vezes se invertem: o médico sabe pouco e o paciente sabe bastante.

Procure fontes com curadoria cuidadosa e embasamento científico: em um ambiente digital saturado de desinformação, informação confiável, com acesso público e gratuito, é um instrumento de educação e de empoderamento.

5. Saúde é um conceito amplo

O conceito de "saúde" é mais abrangente do que "ausência de doença". É preciso um olhar que alcance outras dimensões da vida, além da parte puramente biomédica: o acesso à educação, ao mercado de trabalho, à acessibilidade nos serviços públicos e à vida social também importam.

  • Ter educação é saúde.

  • Ter trabalho é saúde.

  • Ter acesso pleno e digno aos espaços públicos é saúde.

  • Ter vida social e emocional equilibrada também é saúde.

Afinal, a pessoa não é a doença que ela tem. A pessoa com doença rara, ou PCD, é esposa, mãe, filha, irmã, pai, filho, marido, aluno, professor, profissional. É preciso separar a doença (uma disfunção biológica) do doente (uma pessoa) — doença tem CID, pessoa tem nome.

A forma como cada pessoa lida com sua condição no dia a dia tem consequências importantes: alguns dizem "a ataxia não me define" e seguem em frente com aceitação e propósito; outros entram em depressão e retraimento, com enorme dificuldade de aceitar a realidade da doença. Ambas as reações exigem respostas diferentes do sistema de saúde e da sociedade. Aqui, a comunidade (associações de pacientes, grupos de suporte, redes sociais) tem papel importante — muitos encontram propósito em compartilhar sua jornada em perfis de redes sociais.

A saúde começa no corpo, mas não termina nele — ela habita o modo como nos relacionamos, aprendemos, trabalhamos, sonhamos e lutamos. Por isso, cuidar de pessoas com doenças raras é cuidar de sua dignidade e sua voz, e não apenas manejar sintomas.